sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

A CRISE...

A Diocese do Porto vai ser mais atingida pela crise que o resto do país, prevê o economista Alberto de Castro.

As incidências da crise económico-social, que o país atravessa, na população de mais de dois milhões de pessoas que o território da diocese do Porto abarca, foram ontem, 18 de Fevereiro, objecto de análise e reflexão dos padres desta diocese com o seu Bispo, D. Manuel Clemente.

A reunião decorreu na Casa Diocesana de Vilar, entre as 10 e as 17h. Cerca de cinquenta padres, representando os 350 que servem as 477 paróquias da diocese escutaram a intervenção introdutória do Prof. Alberto de Castro, reputado economista, Presidente da Comissão Diocesana Justiça e Paz.

A sua análise foi clara ao delinear os contornos de uma crise que vai afectar de um modo particularmente forte o território desta diocese, em razão das especificidades da base produtiva desta região, particularmente fragilizada face aos riscos da crise em curso. O professor da Faculdade de Economia e Gestão da UCP-Porto calcula que, na Diocese do Porto, o desemprego já ande pelos 10% e, em certos concelhos particularmente vulneráveis já atinja 15 ou 20% da população activa. Nesta vulnerabilidade da base produtiva destacou dois aspectos principais: praticamente toda a actividade produtiva tem como fim a exportação, o que a torna dependente da crise dos mercados de destino; por outro lado, esta é uma região de emprego muito pouco qualificado e com baixos índices de escolaridade.

Presentes nesta Sessão do Conselho Presbiteral, principal órgão de aconselhamento do Bispo, estiveram também os presidentes das principais instituições diocesanas de acção sócio-caritativa, como a Cáritas, o Secretariado Diocesano da Pastoral Social e a Obra Diocesana de Promoção Social. Todos confirmam, a partir da experiência das instituições que dirigem, o crescer da miséria e os aspectos inéditos de que se reveste.

Os padres, em trabalhos de grupos, com questões previamente apresentadas de modo a poderem ser discutidas nos círculos eleitorais que representam, caracterizaram o modo como tudo isto se passa na realidade das suas comunidades, cada vez mais procuradas por pessoas em situações de pobreza que toca a indigência mesmo.

A procura de RESPOSTAS POSSÍVEIS PARA A NOVA REALIDADE SOCIO-ECONÓMICA ocupou uma parte substancial dos trabalhos.

O Conselho assumiu como conclusões:

1. Temos uma doutrina social a conhecer e a dar a conhecer. O Magistério Social da Igreja é um tesouro desconhecido que apresenta referências certas e seguras, baseadas na dignidade da pessoa e da pessoa que trabalha, que devem inspirar denúncias e anúncio. D. Manuel Clemente apresentou como exemplo a Encíclica sobre o Trabalho Humano, do Papa João Paulo II, em que o trabalho é apresentado como condição de realização da pessoa na sua dignidade humana; no mesmo documento, o Papa sublinha que isto é particularmente importante em relação aos jovens que se encontram em fase de ingressar no mercado de trabalho. O Papa defende, ainda, que o primeiro agente disto tem que ser o Estado enquanto primeiro agente do Bem Comum, salvaguardando no entanto, à luz do princípio da subsidiariedade, que, sendo o Estado o primeiro agente, de modo algum pode ser nem o seu único nem o seu directo executor.

2. Instituição alguma possui a capilaridade, a rede de proximidade que a Igreja Católica possui, em todo o território. Nestes tempos de crise, esta característica que só nós temos assume carácter de dever de proximidade a todas as formas de pobreza, a todas as pessoas em dificuldades, o que constitui uma exigência acrescida e indeclinável para as nossas Comunidades, para os seus membros e suas instituições vocacionadas para a acção nestaárea.

3. A Igreja pode provocar encontros entre pessoas e instâncias das quais resultem iniciativas concretas de ajuda e experiências de novos caminhos de solidariedade e de desenvolvimento económico que nos levem a criar laboratórios do modelo de desenvolvimento económico do futuro.

4. A crise surge como um desafio pastoral a repensarmos a própria iniciação cristã, em que, muitas vezes, não é suficientemente valorizada a educação para a cidadania e para o compromisso cívico.

Desta reunião saiu reforçada a consciência de que, como Igreja, temos uma posição teórica e prática a assumir nesta hora, tanto para participar na procura de caminhos de superação da crise, como para olhar a sua dimensão moral, que obriga a rever valores e comportamentos, sem o que a superação não acontecerá.

O Bispo decidiu, também, com a aprovação unânime do Conselho, que o contributo penitencial da Quaresma que se aproxima se destine integralmente ao fundo de solidariedade diocesano, que permite, através das instituições diocesanas de acção sócio-caritativa, ir ao encontro de muitas necessidades.

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